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Entrevista ao Filipe Abrantes
Artigos - Entrevistas
Sexta, 29 Janeiro 2010 19:25
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Edição por androidPT

Hoje apresentamos uma entrevista ao Filipe Abrantes, programador da popular aplicação RockOn. Como também já devem ter tido oportunidade de ler na entrevista à equipa do TAnDI, o Filipe trabalha no Instituto Fraunhofer Portugal onde faz investigação e concluiu o Doutoramento na FEUP em Julho de 2009.


andPT: Filipe, faz-nos uma breve apresentação para os leitores que ainda não te conhecem. Fala-nos do teu percurso profissional e trabalho no Instituto Fraunhofer.

 

Eu formei-me em Eng. Electrotécnica e de Computadores em 2004 na FEUP. Logo a seguir à Licenciatura matriculei-me como aluno de Doutoramento  e em paralelo fui investigador no INESC Porto. O tópico do Doutoramento (controlo de congestionamento na Internet) pouco ou nada tinha a ver com desenvolvimento de aplicações para Android -- ou para plataformas móveis em geral -- e na altura estava longe de sonhar que hoje me encontraria a fazê-lo. A verdade é que o doutoramento foi um passo muito importante, que me fez crescer imenso, e hoje dou frequentemente comigo a reutilizar conceitos desenvolvidos durante o doutoramento na implementação de partes das aplicações :-).

 

Em meados de 2008, concluí a escrita da tese, o que coincidiu com a abertura do primeiro centro Fraunhofer em Portugal (AICOS), e logo no Porto. O facto de me ter juntado à equipa do AICOS acabou por contribuir decisivamente para o meu envolvimento com Android. Sendo o desenvolvimento para dispositivos móveis uma das áreas de interesse do instituto, estando a plataforma a emergir e dada a minha própria curiosidade pelo sistema, ou pelo ecosistema que poderia vir a surgir, acabei por dedicar grande parte do meu tempo ao desenvolvimento de aplicações Android.


andPT: Creio que sejas um utilizador de Android, nem que seja casual. Na tua perspectiva como utilizador o que diferencia esta plataforma das restantes plataformas concorrentes como Windows Mobile e iPhone?

 

O lançamento do iPhone há 3 anos fez com que o Windows Mobile envelhecesse muito depressa. De repente, o WinMo passou a ser uma plataforma muito (mas muito) desactualizada. O iPhone mostrou de uma forma inequívoca, que a aproximação do WinMo de adaptar o desktop ao telemóvel estava fundamentalmente errada. Creio que o Android nessa altura estaria já numa fase relativamente avançada de desenvolvimento (a empresa foi adquirida pela Google em 2005), [especulação] mas penso que o iPhone deverá ter acabado por guiar um pouco a direcção que o Android tomou [/especulação].  Tem de ser reconhecido o mérito do iPhone que acabou por transformar completamente a indústria de smartphones, abrindo caminho para a sua massificação.

 

As diferenças entre o iPhone e Android são bem conhecidas: o processo de admissão de aplicações no Market e na Appstore, a velocidade de evolução da plataforma, a qualidade das aplicações disponíveis em cada uma das plataformas e a velha questão do multitasking. A questão do multitasking daria para um artigo inteiro por si só, por isso vou apenas dizer a liberdade e flexibilidade que o multitasking traz são excelentes, mas não vêm de borla :-). O facto de o Market ter apenas um controlo mínimo sobre as aplicações que nele são admitidas permite aos autores adoptarem um processo de desenvolvimento muito mais flexível. É possível por exemplo recolher feedback de utilizadores em fases precoces de desenvolvimento de modo a validar um ideia, corrigir bugs muito rapidamente, para além de ser possível fazer qualquer tipo de aplicação sem preocupação com a 'censura' da Apple. Mas isto faz com que a qualidade média das aplicações no Market seja bastante mais baixa do que na Appstore. No entanto, isto não se verifica apenas em termos médios -- é algo preocupante que as aplicações 'de topo' de Android estejam ainda bastante longe das suas congéneres do iPhone em termos qualitativos. Resta saber se é algo inerente às plataformas (ser mais fácil fazer um boa aplicação para iPhone que para Android), ou se é apenas uma questão de volume (as aplicações de iPhone poderem ter um orçamento maior dada a maior base de utilizadores). Pessoalmente penso que é uma mistura destes dois factores, e os próximos dois anos nos dirão se o Android consegue ou não dar o salto, com o aumento da base de utilizadores e com a actualização constante da plataforma (que até agora tem sofrido actualizações de ~4 em ~4 meses).

 

Existe ainda outra diferença que não é tão clara, mas que é deveras importante: a criação de um ecosistema de dispositivos Android resultante do facto de o código ser público. Foi já notório na última edição da CES que começam a aparecer inúmeros dispositivos baseados em Android que não apenas telemóveis. De tudo um pouco se tem falado: molduras digitais, STB, netbooks, computadores de bordo em automóveis. Se realmente o Android se tornar numa plataforma universal, isso aumentará consideravelmente o seu interesse (mas também a sua fragmentação).


andPT: O que te levou ao envolvimento na plataforma Android e à programação do RockOn? Foi fácil começar a programar para Android?

 

Devo dizer que foi bastante fácil começar a programar para Android. Embora a estrutura das aplicações seja um pouco diferente da estrutura clássica de uma aplicação de Desktop, a documentação disponível é bastante aceitável e a integração com o Eclipse é quase perfeita. O meu envolvimento na plataforma acabou por resultar em primeira instância das actividades que fui desenvolvendo no centro Fraunhofer AICOS. Entretanto, comecei a interessar-me cada vez mais pela plataforma e no inicio de 2009 decidi começar a desenvolver também a título pessoal, tendo lançado o RockOn.


andPT: O RockOn é inovador no interface que apresenta e forma de interagirmos com as músicas. Foi por não haver nenhum parecido que resolveste programá-lo? O que o diferencia de todos os outros leitores de música para Android?

 

Na altura, optei por desenvolver um leitor de música porque senti que não existia uma aplicação de referência na área. Ainda hoje penso que isso não acontece. O leitor por defeito é robusto mas altamente desinteressante, e todos os outros leitores embora tenham funcionalidades muito interessantes acabam por nunca inovar no layout da interface e modo de interacção e, na minha opinião, descuram também o aspecto gráfico. O RockOn acabou por ser uma experiência no sentido de explorar interfaces e conceitos de utilização alternativos.


andPT: A uma dada altura, o projecto passou a ser Open Source e procuraste ajuda externa para desenvolver e manter o projecto. Foi falta de tempo ou a necessidade de incluir novas ideias vindas de outros programadores?

 

Penso que a falta de tempo para implementar as funcionalidades que eram pedidas todos os dias deu o empurrão final. Ideias ainda havia muitas :P, mas, claro, há sempre espaço para mais :-).


andPT: Que tal foi a integração dos outros programadores no projecto? Quantas pessoas estão envolvidas agora na programação do RockOn?

 

Devo confessar que essa foi a maior desilusão que tive desde que comecei o RockOn. Consegui juntar um grupo de 5 programadores que se mostrou interessado em contribuir, mas que depois acabou por nunca se envolver de forma intensa no desenvolvimento. Penso que grande parte da culpa é minha pois o código estava muito desorganizado e isso acabou por ser um entrave à integração de novos elementos. No entanto, a experiência mudou um pouco a minha percepção inicial sobre desenvolvimento em comunidade. É muito dificil entusiasmar outras pessoas ao ponto de dedicarem o seu tempo livre a desenvolver uma ideia 'estranha'.

andPT: Existe algum repositório público com o código? Qualquer um pode colaborar e submeter código para o projecto?

 

Sim, está disponível no github em http://github.com/fabrantes/rockon-android e qualquer um pode contribuir e adaptá-lo a partir desta base. Tal como a nova versão da aplicação, o ³ e que pode ser encontrada em http://github.com/fabrantes/rockonnggl


andPT: Planos para o futuro do RockOn? Vamos ter novas funcionalidades ou uma eventual mudança do interface?

 

Estou neste momento a terminar a nova versão, que resolvi desenvolver de raiz. Chama-se ³ e já está disponível no Market em versão pre-alpha (palavra-chave de pesquisa: 'rockon'). Acabei por desenvolver a nova versão de raiz por duas razões; em primeiro lugar o RockOn antigo tinha um elevado número bugs resultantes de uma estruturação deficiente do código típica numa primeira aplicação na plataforma; em segundo lugar queria explorar as capacidades de aceleração 3d do Android pelo que grande parte do código teria de ser feito de qualquer das maneiras.

 

A nova versão é mais uma experiência de visualização e em certa medida um salto em relação àquilo que as aplicações actuais oferecem. A aceitação inicial tem sido bastante positiva, embora me pareça que a aplicação continuará a ser adoptada apenas por um nicho de utilizadores.


andPT: Existiam duas versões do RockOn no Market, uma Lite e outra paga. No entanto podíamos também fazer o download da versão completa no teu site. O que te levou a abandonar esse modelo de negócio? Tiveste alguma vez o objectivo de ganhar dinheiro com a aplicação?

 

A verdade é que as receitas não justificavam ter uma versão paga.  Na altura foram tudo experiências. Era a minha primeira aplicação e queria perceber o estado do Market.

 

Não sei em concreto como está a situação actualmente, mas a julgar pelos números das melhores aplicações pagas, é possível rentabilizar o desenvolvimento de uma aplicação se ela tiver realmente qualidade, mas não é fácil. E isto pode explicar em parte o porquê de as aplicações de Android estarem ainda abaixo das congéneres do iPhone em termos qualitativos. Sendo a expectativa de retorno bastante mais baixa, o orçamento de desenvolvimento terá de ser naturalmente mais baixo também.


andPT: No forum XDA existe um tópico a falar do RockOn desde Abril de 2009 e com bastantes comentários até recentemente. Qual foi a aceitação e se estás satisfeito com a quantidade de utilizadores da aplicação? Vale a pena investir tempo na programação de aplicações para Android sem um objectivo comercial?

 

Sim, fiquei muito satisfeito com a aceitação. O envolvimento por parte da comunidade XDA e android-community.com foi bastante intenso desde o início e uma grande ajuda para o desenvolvimento da aplicação. Também em lojas alternativas ao Market, como o andappstore.com e o slideme.com a aceitação foi bastante interessante, estando o RockOn frequentemente presente na lista de aplicações mais populares. Vale a pena sem dúvida.

 

andPT: O androidPT teve oportunidade de estar presente no SAPO Codebits 2009. Estiveram cerca de 650 pessoas no evento, algumas delas apresentaram projectos a concurso sendo que uma boa parte era para Android. Vês a plataforma Android como uma plataforma de eleição para desenvolvimento e investigação de aplicações móveis?

 

Há dois factores que fazem do Android uma boa plataforma de I&D. Um é o facto de código ser aberto e a outro reside no processo de aceitação de novas aplicações no Market (ou falta dele). A não existência de um processo de aceitação permite a validação de ideias e protótipos numa fase de desenvolvimento muito precoce o que é muito valioso num processo de geração e validação de novas ideias. O facto de o código ser aberto permite à comunidade de I&D adaptar o SO a outros dispositivos bem como alterar e testar funcionalidades de mais baixo nível da plataforma.

 

andPT: Mais uma vez agradecemos a oportunidade de realizar esta entrevista. Alguma mensagem para os leitores do androidPT?


Experimentem o ³ e enviem-me o vosso feedback! Obrigado e até breve!

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